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Sábado, Março 30, 2002
Fiquei marcada,
De feridas profundas
intensas e dolorosas.
Fiquei marcada,
De cortes superficiais
que nunca se fecham.
Fiquei marcada,
Do sangue que jorra
sem controle, sem propósito.
Fique marcada,
De palavras falsas
que nunca disseram nada.
Fiquei marcada,
De beijos vazios e quentes
que nunca quiseram nada.
Fiquei marcada,
De burra que sou
por crer no inexistente.
Fiquei marcada,
De você que passou
e me usou.
Agora não sei o que fazer...
Como sou burra! E simplesmente não consigo parar de pensar no que aconteceu, deve ser porque o cheiro dele ficou grudado em mim.
Fiz o que não devia, e agora fico aqui, esperando pelo que não devo. Tamanha imbecilidade a minha! Vou ter que tratar das coisas com uma maturidade que nunca pensei que precisaria ter. Por que ele cheirava tão bem? Maldita tentação!
Tá, resmunguei tanto que não tinha tempo que acabei fazendo tudo o que tinha que fazer e ainda me dei ao luxo de sair todos os dias, quebrei minha abstinência de cinema e nem pude ver o filme que eu queria! Mas eu supero isso.
Quarta-feira, Março 27, 2002
Feriado? Que grande feriado eu posso ter, aqui na cidade dos mortos? Só o ócio mesmo...Quer dizer, com todos os trabalhos que eu tenho pra fazer, vai ser um milagre achar tempo pra respirar, quanto mais pra resmungar sobre as faltas de opções de diversão da cidade.
Você finalmente chega em casa e você se senta em frente à janela. Você olha para o perfeito azul do céu, e você tem sentimentos que não consegue descrever enquanto observa o sol refletir na brancura das nuvens, que se arrastam. Você sorri ao olhar o verde delicioso das folhas nas árvores. E o que você faz? Você troca tudo isso pelas letras da tela do seu computador, você vai escrever sobre as coisas que te agradam, sobres as coisas que você não gosta e sobre as coisas que lhe passaram na mente. Você não sabe porque sempre troca as músicas leves pelas músicas tristes de que gosta tanto. Você vai escrever sobre as coisas que não quer falar. E aonde isso nos leva? Acho que isso não mais importa.
Terça-feira, Março 26, 2002
Cansaços internos e externos, cansaços feitos de incapacidades.
Caras atraentes e comprometidos são um saco. É por isso que eu me afogo no estudo, me faz parar de pensar nessas coisas frívolas.
Há algo de muito vazio no mendigo que esmola na porta da minha casa.
Há algo de muito pobre na BMW do meu vizinho.
Há algo de muito insosso nas pessoas que arrastam suas vidas
da maneira que lhes foi ordenado.
Há uma grande incapacidade pairando sobre aqueles que exigem justiça
de um sistema que deixa nossas mentes quebradas e falidas.
E parece haver algo de muito errado em mim
por preocupar-me com isso.
Segunda-feira, Março 25, 2002
Vai-te, senhora do rosto bonito, ousastes rir das minhas lágrimas, minhas pobres lágrimas desamparadas que, por não terem onde cair, se desmancham no ar. E riu, do meu corpo inerte no chão, aquele corpo meu que não mereceu o amparo de um abraço. Com tantas vidas perdidas, nem ao menos fui capaz de erguer minha face e comtemplar-te os olhos...Não poderia jamais ver meu rosto sem feições refletido nos teus belos olhos. Moça de bela face, onde escondestes todos aqueles sentimentos nobres? Atrás de teus belos cachos negros? Atrás dos teus olhos turvos de crueldade? Ah formosa senhora...abristes mão de tudo isso? Para quê? Para quem?
"Sentia-se incapaz de amar; carecia-lhe a fraqueza sublime, essa languidez atributiva da função da mulher no amor, a passividade pudica, ou aviltante da fêmea submissa ao macho, forte e dominador, irresistível, como aprendera na intuitiva lição da natureza; essa comovente timidez de novilha ante a investida brutal do touro lascivo, sem prévios afagos sedutores, sem carícias de beijos correspondidos, como nos idílios das rolas mimosas. Não; não fora destinada a submissão."
Do livro: Luzia-Homem
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