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Sábado, Janeiro 25, 2003
Tem razão amigo, quando eu for digna do mundo me avise que eu saio.
- Não seja você que daí não me irrita.
- Só isso moço? Não pensei que fosse tão fácil...
As madames me queimam, doutores observam estupefatos tirando raramente os olhos dos seus blocos de notas, mordomos e servas oferecem o caviar aos de ternos bem alinhados, os brindes são todos para mim que grito em vão na sala acusticamente vedada. "Eu não sou louca senhores, eu não sou louca!"
Não gosto quando as pessoas falam comigo desse jeito, não dei liberdade para isso. Eu não sou menos vítima do que você.
Você sabe que eu me preocupo muito mais com você do que comigo.
Era uma vez três meninas desocupadas e completamente sóbrias sentadas embaixo de uma árvore, elas jogavam conversa fora e acabaram chegando a conclusão de que se deus existia ele certamente era uma galinha. Assim nasceu a Bíblia da galinha, que agora ganhou um blog.
Sexta-feira, Janeiro 24, 2003
Os dias em que nada funciona.
O telefone não toca, as luzes não são acesas, o frio não me congela. Fica só esse cheiro de infância, nostalgia estúpida, de quando eu, franzina e desprotegida, passava dias no limbo. Mas há tempos reivindiquei meu direito de ser fantasma e pus-me a assombrar a estagnação dos que persistem no ato sórdido de fingir não existir. Hipocrisia pura, meus caros, isso lhes digo sem medo. Mas hoje eu quis voltar a ser criança, para criar a ilusão de perder a pureza que nunca tive. Deslizei sorrateira, como se alguém pudesse por ventura me espreitar - pretensão! -, para dentro do quarto escuro e vazio. Ironicamente bem mobiliado e caótico, mas tão desprovido de sentimentalismo, carecido da pureza que nunca existiu. Abandonado e só, bom lugar para os vermes mas eles, ao contrário de mim, não fingem, eles são. E foi para lá que eu fugi a fim de encontrar o que perdi (mas se nunca tive como posso ter perdido?) e ser o que não fui. Mas é bobagem, capricho birrento, afinal fantasmas não são.
Ainda assim hoje decidi voltar a ser franzina e ouvir assustada as vozes sussurradas de outros fantasmas, hipócritas como eu, mas hoje eu sou desprotegida, vitimada de uma terrível tragédia inventada, não me recordo qual. Nesse instante (que na verdade são os dias inteiros de hoje, sim, porque são muitos) recupero os medos, calafrios, dores físicas e mentais, muito mais morais do que mentais, mas o que tem a dizer uma criança sobre moralidades? Não há inocência senhores, antes que me indaguem, a dissimulação a consumiu desde que me recordo a existência.
Desse modo, ponho-me a remoer coisas que não me são de interesse, típicos pensamentos dos que querem fugir a responsabilidade de existir por considerá-la um fardo pesado demais para a pele fina de suas mãos. Uns aristocratas, é o que são! Pois quem mais temeria a visão do sangue escorrendo pelas palmas calejadas? Mas então percebo que me falta alguma coisa, antigamente eu tinha lágrimas frias e covardes, transparentes de fragilidade! Meus olhos facilmente se avermelham mas não me vêm as lágrimas, eu não as possuo mais. Será esse o preço que se paga pela fuga? Se for eu lhes digo que é uma troca fácil. Percebam que se houvesse alguma pureza em mim, ou mesmo resquício de lembrança dela, eu jamais falaria isso sem remorso, no entanto aqui estou.
O telefone toca e me diz consolos (ele mesmo nunca me viu sorrir), mas são palavras falsas que eu mesma cutuquei. Tal provocação me impede de continuar fingindo e volto a ser fantasma, presa vagando no quarto escuro a procura de outro desprotegido a quem possa assombrar, só por vingança.
Mas se eu me pinto assim, tão sórdida, perante aos senhores e suas esposas tradicionalistas rigidamente bem maquiadas é porque essa é a maneira que eu quero que me vejam e você bem sabem que a traiçoeira verdade é, às vezes, tão falsa quanto a mentira que apedreja. E se os confundo é porque gosto, porque não os entendo com todas as frivolidades de etiqueta, com suas roupas sempre bem passadas e seus semblantes demasiado vivos. Se os confundo, não me entendam mal, não é porque os invejo mas sim porque os assombro.
Quarta-feira, Janeiro 22, 2003
Vivemos num mundo onde o sofrimento é alegórico.
Eu não sou o que você acha, eu nem sei se sou.
Já apanharam de pessoas com metade da sua idade? É o que acontece quando você se mete a fazer aulas de Sanchou depois de velho. Inclusive esse dias eu fui chamada de tia por um garoto com também metade da minha idade que jogou sinuca comigo no hotel e ínumeras vezes fui chamada de senhora. Não sei porque mas ando me sentindo velha.
Terça-feira, Janeiro 21, 2003
Sabem aquela musiquinha "We are young" do Supergrass? Pois é, me deixa triste.
Minha voz fraquinha anda pelos cantos, murmurando nas sombras vestígios de canções, fugindo do sol, do ser, medrosa de tudo, coitada, tão quebrada. É saudade dos palcos, onde eu sinto que sou alguma coisa, mesmo que não seja.
Não repare se de repente eu me jogar nos seus braços e chorar, nem ligue se não me conhecer e , acima de tudo, não se espante se eu resolver nadar no céu.
Hoje eu acordei querendo falar alguma coisa, juro! Querendo dizer esse algo que me engasga e se recusa até mesmo a saltar pelos olhos, esse algo que eu não sei o que é. De que me adiantam as falas das perspectivas? Seria, para elas, um medo, um amar, uma súplica, um rancor, um socorro? Mas elas não respondem a mim mesma quanto a esse sinal que ignoro e esqueço, assim mesmo, indigente de mim, displicente do que penso. Vai, joga com a minha vida, faz dela o que bem enteder. Foi essa vontade que me lembrou de que eu ainda estava viva e eu não queria ter lembrado nunca mais.
Não, não fale nada porque eu não quero ouvir. Hoje eu só quero gritar porque não param de me dizer o que eu devo querer. Não, hoje eu não estou nem aí para você, para mim ou para qualquer coisa. Chega de verdades, aquelas que ninguém nunca quis, nem posso me dar ao luxo de ser diferente.
Comum é ser incomum e diferente é ser igual. E ainda querem me convencer de que o mundo faz algum sentido.
É um jogo, e eu só jogo com coisas maiores do que o amor.
Se ao menos você pudesse me tirar daqui...Aí poderíamos pensar em todos esses absurdos que você insiste em querer me ensinar.
click here to find out which Beatle are you!!
O que me pede é ultrajante, sempre fui velha demais para brincar de casinha.
Levantei exaurida dos discursos, ofendida, e de repente percebi que não tinha para onde correr, não havia um lugarzinho sequer onde as frustrações alheias não me castrassem os anseios. Dor, por que gosta tanto de mim?
"É que você gosta de lutar."
Enquanto você não volta fico confrontando a impossibilidade de te dar um rosto.
Vou sentar aqui e fingir que não passei a noite inteira olhando você. Onde quer que você estivesse e mesmo que eu não soubesse.
Mulheres, tantas mulheres! Decididas, insensíveis, macias, perdidas, sentimentais, fortes, frágeis, doces, especialmente doces, principalmente doces, sempre doces, por mais fortes e decididas que sejam. E onde ficamos nós, as reais, as ásperas, as ácidas, amargas, azedas? Quebradas? Malditas? Finitas? Queimadas?
Nunca vou me acostumar com cidades praianas, pessoas seminuas e estrangeiros atrás de prostituição.
Natal também é surreal:
Quando eu cheguei em Natal a primeira coisa que um habitante nativo da cidade me disse foi: "aqui é natal o ano inteiro." Resolvi ignorar essa piada terrivelmente infame. Ledo engano, ele estava certo, em pleno dia 13 de janeiro havia uma árvore de natal feita com luzinhas no famigerado morro do careca (aonde se cultivava o terrível hábito do ski-bunda antes de ser proibido) e todos os guindastes das construções de toda a cidade estavam enfeitados com luzes de natal. Aliás, nenhum estabelecimento comercial havia retirado sua decoração de natal.
Medonho.
Voltei.
E como prenúncio do apocalipse eu estou bronzeada. Mas daqui a algumas semanas eu devo voltar ao meu característico branco-biblioteca.
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