Sábado, Fevereiro 01, 2003


"Deixa eu te ensinar", ela dizia repetidas vezes. Mas a outra nem se importava e continuava e bebericar seu café enquanto olhava tristemente para a chuva. Linda chuva, raros foram os dias tão belos quanto aquele. E não poderia ser diferente, era uma dia anômalo, para encontros inusitados entre pessoas inexoráveis. O que havia de especial naquele encontro? Nada, o especial não servia para esse tipo de gente, mas era certamente o mais estranho dos encontros, que não começou e nunca terminaria. Por isso aquele dia tinha o gosto da melancolia sussurrada.


Você me deixou para trás?


- Ei moça! Moça!
Ela acordou torpe, levantando a cabeça da mesa de mármore e sustentando o tronco com os braços descoordenados.
- Moça, a senhora precisa ir embora, nós já vamos fechar.
Não respondeu, só se dignou a ficar olhando perdida para o céu.
- Já amanheceu, vá curtir sua bebedeira em outro lugar.
Ele olhou para o estado decadente da moça com pena e suspirou:
- Eu não sei como puderam deixar uma moça tão bonita assim caída na mesa até agora, você não tem amigos? Alguém que pudesse ter te levado para casa?
Continou sem obter resposta, nem um movimento sequer das pálpebras. Preocupado ele a sacudiu pelo ombro, fazendo com que os braços perdessem o pouco equilíbrio que tinham e o tronco se esfacelasse na mesa.
- Moça, tudo bem? Ei, você está ouvindo?
- Desculpe - disse a voz embolada - , estava olhando aquelas nuvens.
- Olhando as nuvens? A troco de quê?
- Estava pensando em como deve ser navegar indiferente por aí, como se não existisse nada embaixo de nós.
- Está bem moça, mas agora é hora de você pensar sobre isso em outro lugar.
Ela riu, bêbada.
- Você nunca quis ser uma nuvem?
- An?
- É, nadar por aí sem rumo, sem se preocupar com nada.
- Parece que você andou exagerando ontem a noite, nuvens não nadam, elas voam.
- Que isso, eu posso te convencer de que elas nadam. Senta aí, vamos beber alguma coisa, eu pago.
- Eu não bebo, e nós já vamos fechar.
- Fechar, fechar, é só nisso que você pensa?
- Moça, eu tenho um emprego aqui e não quero perdê-lo!
- E você gosta da sua vida?
- Ah, a vida nunca é boa, mas é o que eu tenho e por isso vou levando.
- Pois eu posso te mostrar algo melhor! Me ajude a levantar.
Ela levantou e andou tropeçando até a borda do prédio alto.
- Vem cá! - ela acenou desajeitada.
Ele se colocou ao seu lado.
- Olha lá aquelas nuvens grandes que o vento carrega para onde quiser. Olha a jeito que o sol parece nascer primeiro para elas, como se fossem mais importantes do que nós.
- E o que tem?
- Não é bonito?
Ele parou hipnotizado, tentando observar nuances. Ela segurou sua mão e pulou.
- Ai...
Ela levantou, sacudiu o corpo ao lado - "morto." - e foi embora gargalhando.

Quarta-feira, Janeiro 29, 2003


Será que eu estou entendendo tudo errado? Deve ser, afinal de contas eu sempre fui tapada.


"Toc, toc"
Ela abriu a porta receosa e vasculhou os cantos escuros.
- Você está aí?
- Pshhh! Estou aqui embaixo, entra logo!
- Eu não consigo enxergar nada, cadê o interruptor?
- Não, não acende a luz não!
- O que você está fazendo assim, escondido embaixo da escrivaninha?
- É que assim eles não vão poder me ver.
- Eles quem menino?
- Oras, eles.
- Tá tá, mesmo que existissem eles, você acha que eles poderiam ignorar essa barulheira toda? Por que a música tão alta?
- Mas você hoje, só fazendo perguntas idiotas! Já não cansei de dizer que com a música alta eles não conseguem escutar meus pensamentos?
- Mas quem diabos são eles, criatura?!
- Eu já te disse milhões de vezes garota! Eles andam por aí todas as noites, é melhor ter cuidado!
- Ai, lá vem você com toda essa bobagem denovo!
- Não é bobagem não sua burra! Ontem mesmo eles vieram me pegar denovo!
- Você precisa de ajuda, onde já se viu acreditar nessas coisas? Você não é mais criança!
- ...
- Eu não preciso ficar aqui ouvindo isso, da próxima vez que precisar de ajuda que seja algo sério!
Ela se virou em direção a porta.
- Espera!
- O que foi?
- É sério, preciso de você agora, não teria te chamado se não fosse verdade.
Ela o abraçou fortemente.
- O que houve?
- Sou criança sim, e tenho fome.
Ele rasgou o pescoço dela com os dentes.
- Obrigado.
Depois foi embora com eles.


Tão cheios de vazios, os dias em que calam as lágrimas e sorriem as indiferenças. Quando as palavras sangram sozinhas e os sons escarnecem da nossa mudez. Só um pedido de socorro chora, por não poder ser gritado.


- Ué, por que vai fazer isso?
- Porque se eu cuidar deles talvez...
- Háh, o talvez! Incerteza inerte do ser, ingenuidade de quem procura uma desculpa. Você realmente acredita nisso? Acha que pode apagar mais depressa o estrago?
- Esperava que sim, eu não queria ter feito tudo isso.
- Pára! Pára de se assombrar, de se afogar, onde isso te leva? Já passou não é mesmo? Por que se prender a isso?
- Eu nunca vou poder me perdoar.
- Mesmo que não possa tudo vai acabar bem, tudo vai dar certo.
- Só que eu não tenho final.
- Assim você me deixa sem opções.
- Então me abraça.
- E sujar minhas mãos? Nunca!

Domingo, Janeiro 26, 2003


É, meu machucado infeccionou mesmo, que beleza, era tudo que eu precisava!

(Porque eu também me dou ao luxo de fazer comentários imbecis)


Se eu abrir os olhos eles voltam?


Eu cuido dos outros, não de mim.


Um amigo me disse uma vez: "quero falar eu te amo para alguém e entender o que digo". Hoje ele entende.
Eu não.


É tudo muito difícil e ninguém sabe porquê.